MARCELO SAVIOLI – Muito cuidado ao analisar esse Fluminense

Foi jogo para o Fluminense fazer dois, três a zero

Foto: Mailson Santana (Fluminense Football Club)
Amigos, amigas, poucas coisas me aterrorizam tanto no Fluminense como esse tipo de análise que eu vou fazer do jogo de hoje, porque o Fluminense dos últimos anos é uma gangorra desembestada, que quanto mais perto está da subida, mais namora com a queda.
O Fluminense que tenho visto nos últimos jogos, que foi superior ao São Paulo, líder do campeonato, no último domingo, que dominou o Vitória durante noventa minutos, é um time com padrão de jogo, organização e fundamentos bem interessantes. Tem intensidade, marca o campo todo, reduz espaços e tem organização tática em todas as fases do jogo.
Vamos fazer uma retificação. Todas as fases do jogo é coisa da partida de hoje. A novidade foi ver o Fluminense atacando bem pelos dois lados e sendo capaz de coordenar jogadas ofensivas, algo que não víamos nos jogos anteriores. Isso certamente se deve à escalação de Matheus Alessandro e Everaldo, algo que, se não me engano, falei na última coluna. Aliás, Everaldo mais uma vez me impressionou, embora não tenha feito com que eu me rendesse em definitivo. A gente precisa ver mais.
Olhando a escalação antes do jogo, a sensação foi de desânimo, principalmente ao ver que Daniel sequer no banco estava. Jogamos com quatro atacantes e tudo sugeria que não teríamos meio, já que Dodi pouco se apresentava como homem do último toque e de Richard pouco se pode esperar nesse quesito.
O que tivemos de essencial foi a troca de Jadson, que não vinha jogando nada, por Luciano. No papel, uma troca de nada por coisa nenhuma, na prática, uma bela surpresa, pois Luciano cumpriu bem o papel, atuando como aquele meia que dá seguimento às jogadas com simplicidade e precisão, mas foi a atuação de Dodi que me impressionou. Atuou como o volante que precisamos, que dá verticalidade à jogada e se movimenta com inteligência.
Aí vem aquela parte difícil de explicar. Como não ganhamos o jogo? Poderia ter sido no chute na trave do Everaldo, poderia ter sido na jogada do Matheus Alessandro, na cabeçada do Gum ou no chute de Leo, com belo passe de Kayke. Dois personagens surpreendentes na mesma jogada, Kayke pelo bom trabalho das saídas da área e Léo com participação impecável na partida em todos os sentidos.
Só que a bola não entrou e tem aquela coisa de analisar resultados, o que, como sabe o leitor, não é muito o meu feitio. Foi jogo para o Fluminense fazer dois, três a zero.
Fico à vontade para elogiar o trabalho de Marcelo Oliveira porque o time que ele colocou em campo em nada se parece com o meu, muito embora o 4-2-4 já tenha sido abordado com simpatia por aqui. Só que eu não estou aqui para fazer cabo de guerra com treinador. Eu tenho minhas ideias, ele tem as dele. Ele treina, eu analiso. Se a ideia dele funciona, eu tenho que bater palma e dizer a verdade para o leitor.
A impressão que fica dos últimos jogos é de que o Fluminense encontrou um modo de jogar, que inclui uma paixão desenfreada pela bola. Se é assim, não tem mais que mexer. Jogar com quatro atacantes não nos fez mais vulneráveis, muito pelo contrário, até porque é a forma como você treina e estrutura o time que vai te tornar mais ou menos vulnerável, mais ou menos ofensivo. Acho que esse 4-2-4 ganhou vida e agora é fazer ajustes, principalmente para a bola entrar, que vem sendo a tarefa mais difícil e executar.
Não quero me alongar muito, pois teremos o clássico no domingo e quero ver um pouco mais desse Fluminense, mas temos dados muito interessantes e estes estão descritos nessa humilde análise.
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Não se deixem enganar pelos fatos recentes envolvendo as finanças no Fluminense. As últimas novidades nesse campo são velhas, algumas muito alardeadas, outras ignoradas.
O Fluminense fez um ajuste importante no equilíbrio entre receitas e despesas, gerou muita receita extraordinária com transferências em 2018 e vai terminar o ano superavitário.
O Fluminense tem fluxo de caixa insatisfatório em vários momentos do ano porque a entrada de receitas não é regular, o que faz com que buracos como o atual apareçam. Se tudo sair como se prenuncia, reduziremos bastante a nossa dívida no final do ano.
Não obstante, o Fluminense tem uma situação financeira extremamente delicada, decorrente de uma dívida gigantesca de curto prazo, que leva, a todo momento, o clube a ter receitas bloqueadas, o que acarreta esses problemas de fluxo de caixa e consequentes atrasos de salário.
Os atuais problemas financeiros não são produto da gestão Abad e sim da gestão Peter Siemsen. A gestão Abad, ao contrário, tem feito o que sua limitação permite para consertar. O problema da gestão Abad é a limitação, o vazio de ideias para usar os trunfos que tem para dar uma banda na crise financeira e colocar o Fluminense nos trilhos.
Em ocasião propícia, vamos falar mais sobre isso.
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É o tipo do assunto que é impossível não comentar. Eu não sei qual a motivação do hediondo atentado sofrido pelo deputado e candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, embora eu não tenha dúvida de que foi política.
Como nós estamos no Brasil, eu não quero entrar no mérito dos detalhes obscuros que porventura estejam associados a essa barbaridade. Quero chamar atenção para o fato de que temos um presidente da República que não foi eleito, pondo em prática o projeto derrotado nas urnas, um candidato líder nas pesquisas que é preso político e o segundo colocado, vítima de um atentado, hospitalizado com risco de morte.
Se alguém nesse país ainda se acha no direito de apontar o dedo para o país vizinho, é porque falta espelho em casa. O inferno é aqui mesmo, e a proliferação de pessoas morando nas ruas, violência urbana, desemprego, queda da renda e caos econômico e financeiro são indicadores irrefutáveis. Espero que as pessoas comecem a refletir como adultos, responsáveis e humanos sobre o que estamos fazendo com nosso país, porque a vítima dos nossos desatinos somos nós mesmos.
Não tenho nenhuma simpatia pelo deputado Jair Bolsonaro, a quem considero um adversário político, com ideias opostas às minhas, mas isso não pode e não vai fazer jamais com que eu trate tal barbaridade com indiferença ou qualquer outra atitude que não seja de pesar e repúdio.
Antagonismo político não é licença para leviandade, crueldade, barbárie e estupidez.
Saudações Tricolores!
2019-02-27T13:08:38+00:00 setembro 6th, 2018|

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